Realidade paralela ou artificial no Brasil de hoje? | Contei

Por Roberto Rufca

Todo mundo sabe que o ano de 2021 não tem sido nada fácil para a maioria dos brasileiros. Vários indicadores mostram o tamanho do ônus social, para além das quase 615 mil mortes que a pandemia trouxe: inflação, juros, desemprego, custo de vida, falta de perspectivas. Os simpatizantes do governo do presidente Jair Bolsonaro culpam a imprensa e dizem que ela se alimenta de uma agenda sempre negativa para desvalorizar o país. Os que são contrários ao governo entendem que o reconhecimento da urgência da vacina veio tardiamente, o que agravou as sequelas sociais que a Covid impõe.

As “sequelas sociais” estão bem diante de nossos olhos, de Norte a Sul. Mas ainda há quem, por questões estratégicas ou por necessidade retórica de um governo que parece mais preocupado em exalar seu ódio às instituições, as negue. O ministro Paulo Guedes é um bom exemplo: em Dubai, nos Emirados Árabes, o Brasil descrito por ele aos possíveis investidores não tem muita sintonia ou linearidade com aquele que a gente vê nas ruas. Só para se ter uma ideia: a população em situação de rua na maior cidade do País era de 24 mil pessoas em 2019 – antes da pandemia. Agora, a Prefeitura fará um novo censo e os próprios agentes públicos municipais estimam que, hoje, ela seja de pelo menos 35 mil pessoas – 50% a mais. Para não ficar restrito apenas ao contesto social da cidade de São Paulo, pelo menos 20 milhões de brasileiros passam fome, segundo um levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan). Há quem aponte que este número – da chaga social que é a fome – seja ainda maior. As imagens da população atrás dos restos, seguindo um caminhão de lixo em Fortaleza, ou da disputa por ossos em Cuiabá, São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis falam por si, dispensam análises e adjetivos.

Nietzsche, crítico sagaz da religião e da moral no Século XIX, dizia que temos a arte para não morrer de realidade. Se falta emprego, falta cidadania, falta representatividade, falta comida sobre a mesa. Nem a arte está garantida num Brasil que vê muitos adolescentes deixarem as escolas para buscar ocupação e “ajudar em casa”, já que as contas de uma infinidade de famílias não fecham.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 15 milhões de desempregados e pelo menos 12 milhões que “desistiram de procurar emprego” e estão ‘se virando’ como podem – partiram para a informalidade. Será que estes números não são maiores?

O ministro Paulo Guedes diz que não é bem assim. Aos investidores em Dubai, ele insistiu na tese de que o Brasil sentiu menos o efeito da crise provocada pelo Coronavírus. A economia mundial encolheu no ano passado. A queda, em escala global, foi de 3,5%, o que significa dizer que o mundo movimentou, em 2020, 3,5% a menos do que havia movimentado no ano anterior – sem pandemia.

A “gripinha” que já matou mais de 610 mil brasileiros até agora trouxe novas sequelas – efeitos econômicos: inflação de dois dígitos por exemplo e revisão de todas as projeções de crescimento para baixo no ano que vem, quando a economia brasileira deve crescer, de acordo com o mercado, apenas ou insuficiente 1%. A economia global caiu 3,5%, mas a nossa tombou 4,1% – ou seja, a recessão no Brasil desmente o efeito “em V” a que o ministro se refere. Caímos mais do que a média do mundo; nosso tombo foi maior.

Parecem existir dois Brasis bem diferentes: o de Paulo Guedes, que cresce, gera empregos e “dribla” o efeito econômico da Covid como se fosse um jogo de solteiros contra casados e um outro, com indicadores sociais profundamente preocupantes. A Federação do Comércio, por exemplo, apontou que 7 em cada 10 famílias de São Paulo estão endividadas. Se considerar os juros altos do cartão de crédito “pendurado”, são 8 a cada 10.

Todo mundo também sabe que a inflação é uma espécie de imposto social. A previsão da inflação global para este ano de tantas incertezas oscila entre 3,5% e 3,9% para o G-20. A nossa está bem pertinho de se tornar uma inflação de dois dígitos – acima de 10%, quase o triplo da média das 20 maiores economias do mundo. Se considerarmos os últimos 12 meses – de outubro do ano passado a setembro agora – já passamos os 10%.

Outro reflexo é a perda de renda do brasileiro. Em 2020, a média de renda no país ficou em R$2.213,00 de acordo com o IBGE, menor valor desde 2012. Enquanto isso, a Amazônia viu mais de 13 mil quilômetros de matas e reservas naturais evaporar, embora o governo tenha afirmado, em Dubai, que a Amazônia “não queima sozinha” e que somos um bom exemplo de preservação ambiental. Os 13 mil quilômetros equivalem a 8 vezes o tamanho da cidade de São Paulo ou a uma vez e meia a Grande São Paulo com seus 39 municípios.

Às vezes, a gente fica com a impressão que parte da equipe econômica do governo percebeu que a economia brasileira está com Covid. E está tratando a doença com Hidroxicloroquina. Será que não é hora de tomar uma vacina?

Roberto Rufca, formado em Marketing, é especialista em gestão pública