Será que a Parada ainda é dos LGBTs?

Entra ano, sai ano, e a Parada LGBT+ de São Paulo, que carrega o título de maior do mundo, segue enfrentando desafios. Mas uma pergunta ecoa forte em quem realmente vive a comunidade: a Parada ainda representa a gente?

A resposta, quando você circula por rodas, grupos e espaços onde pessoas LGBTQIAPN+ estão de fato, é quase unânime: não.

Essa semana, me deparei com um post do perfil @dicaslgbt no Instagram, que perguntava quais artistas as pessoas gostariam de ver na Parada. E deixei lá um comentário sincero, vindo do coração e da vivência:

“Gostaríamos de ver a organização da Parada dando espaço pra artistas LGBTQIAPN+ da nossa cidade. Gente que luta o ano todo, que se monta, que enfrenta o risco nas ruas, que sustenta a cultura e a resistência. E que, quando chega esse momento tão simbólico, se torna invisível mais uma vez.”

A resposta veio, tanto do perfil quanto do Gilson Ney, diretor de finanças da Parada SP:

“Gente, esses artistas grandes quem traz são as marcas, não a associação da Parada… Nos carros da Parada são artistas de SP.”

Ok… Mas então eu questionei novamente — e fiquei sem resposta:

A partir do momento que o patrocinador paga, acaba o discurso? Onde fica a curadoria feita pensando no que é importante pra comunidade? Quando sentam com as marcas pra negociar, não é discutido quem a comunidade quer ver? Quem faz a diferença na cidade o ano inteiro? Ou será que só vale quem garante milhões de streams e engajamento comercial?

O incômodo é real, e não é de hoje. Porque todo ano é assim: quem dá a cara, quem segura a barra, quem carrega no corpo, na arte e na existência a resistência LGBTQIAPN+, fica de fora. E o palco vai pra quem, muitas vezes, nem faz parte da comunidade.

A pergunta que fica, com dor, mas também com desejo de mudança, é uma só: A Parada ainda é da comunidade ou virou uma grande feira comercial, onde nossos corpos só servem de cenário, mas não são protagonistas?

A origem de uma luta chamada Parada LGBT+

As paradas surgem a partir da Revolta de Stonewall, em 1969, quando frequentadores de um bar LGBTQIA+ em Nova York decidiram reagir contra mais uma violenta ação policial. Esse levante marcou o início de um movimento global de resistência, que um ano depois resultou na primeira marcha do orgulho LGBTQIA+.

O nascimento das paradas no Brasil

No Brasil, o movimento começou em 1995, com uma marcha simbólica no Rio de Janeiro, e cresceu no ano seguinte com um ato na Praça Roosevelt, em São Paulo, que reuniu cerca de 500 pessoas. No ano seguinte, em 1997, a primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo tomou a Avenida Paulista, mesmo sem autorização. A partir daí, as paradas se multiplicaram por todo o país.

Quando o mercado chega, quem vai embora?

Com o crescimento das paradas, vieram também os patrocínios e as grandes marcas. A estrutura aumentou, os palcos ficaram maiores, mas surgem questionamentos. Quem tem ocupado os espaços de visibilidade?

Cada vez mais, artistas locais, drags, pessoas trans e corpos dissidentes são esquecidos, enquanto celebridades — muitas nem da comunidade — sobem nos grandes palcos. A Parada, que nasceu da resistência, corre o risco de virar uma grande vitrine publicitária, onde o lucro fala mais alto que as pautas da comunidade.

Memória, luta e futuro

As paradas seguem sendo fundamentais, como espaço de memória, celebração e reivindicação. Mas é preciso lembrar que elas nasceram da luta, da resistência, não da festa nem do marketing.

Que o protagonismo volte para quem constrói essa história todos os dias, nas ruas, nos becos e nas trincheiras da vida.

Por Leo Almeida.

@AlmeidasIndicam

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