A trajetória de Alexsander Vaz, conhecido nacionalmente como Lysa Bombom, é marcada por superação, fé e resistência. Com mais de 30 anos de carreira, a artista drag se tornou um dos maiores nomes da noite paulistana, mas antes de conquistar os palcos enfrentou rejeição familiar, chegou a morar nas ruas e viveu momentos que transformaram completamente sua história.
A história é contada por Marketito, novo colunista do portal Contei, que estreia seu espaço dedicado a dar visibilidade às histórias da diversidade e de personalidades que ajudam a construir a cultura brasileira.
Tudo começou em 1993, quando Alexsander assistiu a uma apresentação de drags no programa de Hebe Camargo e ficou completamente fascinado. Na época, morava com os pais, havia concluído o curso de torneiro mecânico, trabalhava na profissão e namorava uma menina. Mas bastou ver Dimmy Kier na televisão para que uma nova paixão despertasse.
A oportunidade surgiu pouco tempo depois, quando começou a trabalhar como caixa na recém-inaugurada Sound Factory, na Penha. Inspirado em Dimmy Kier, fez sua primeira montação e chamou tanta atenção dos proprietários da casa que recebeu o convite para assumir a portaria como hostess. Durante um período, conciliou a profissão de torneiro mecânico com a carreira artística, até decidir seguir definitivamente a vida nos palcos.
A escolha, no entanto, teve consequências difíceis. Além dos comentários da vizinhança, enfrentou a resistência da própria família, que não aceitava sua realidade. Após participar de um programa de televisão, o ambiente em casa tornou-se insustentável e Alexsander precisou sair sem levar absolutamente nada.
Inicialmente foi acolhido pela amiga Michelle X, mas, para não se sentir um peso para a família que o ajudava, acabou vivendo nas ruas.
“Chegou uma época em que eu não tinha mais onde ficar. Morei por oito dias em uma praça lá em Santana. Tinha uma amiga que ficava comigo para que eu não ficasse sozinha ao relento.”
A mudança começou quando foi contratada como hostess da tradicional Club Base. Aos poucos, conseguiu reconstruir a própria vida, recuperou sua dignidade, conquistou estabilidade financeira e realizou o sonho de subir ao palco da Blue Space, tornando-se um dos grandes nomes da cena drag paulistana.
Mesmo com o sucesso, a distância da família continuava sendo uma ferida aberta. Foram 15 anos sem contato até que um acontecimento inesperado mudou completamente essa história.
Sua irmã foi diagnosticada com um câncer no sangue em estágio avançado e precisava urgentemente de um transplante. Entre todos os familiares, apenas Lysa Bombom era compatível para realizar a doação. Diante da possibilidade de perder uma filha e também o filho com quem havia rompido relações, sua mãe pediu perdão e a família finalmente se reconciliou.
Em 2020, durante a pandemia, Lysa enfrentou mais um período de dificuldades. Foi na fé e na devoção a Nossa Senhora que encontrou forças para seguir em frente. Para sobreviver, rifou os próprios figurinos de show e, com parte do dinheiro arrecadado, preparou marmitas para distribuir a pessoas em situação de rua, realidade que ela mesma conhecia de perto.
A história de Alexsander Vaz mostra que a arte drag vai muito além da performance. É também uma história de sobrevivência, afeto e transformação.
O nome artístico resume essa trajetória. “Lysa” nasceu da admiração pela cantora Liza Minnelli. “Bombom” foi o apelido carinhoso dado por Dimmy Kier, justamente a artista que despertou seu sonho ao aparecer na televisão. Já o azul, cor que marca seus figurinos e sua identidade visual, representa o manto de Nossa Senhora, símbolo da fé que, segundo Lysa, a amparou nos momentos mais difíceis da vida.
Hoje, com mais de três décadas de carreira ininterrupta, Lysa Bombom permanece como uma das grandes referências da arte drag brasileira, levando aos palcos uma trajetória que mistura talento, resistência, generosidade e fé.
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