Do Balé Clandestino ao SBT: Stefany di Bourbon e a Arte que Não Envelhece

Quando Ricardo Cavadas aponta pra onde quer ir, dificilmente erra a mira. Sagitariano daqueles convictos, ele traz no elemento fogo a energia que sempre moveu seus passos. Ainda criança em São Paulo, já mostrava que não tinha vindo ao mundo a passeio: escondido de todo mundo, frequentava aulas de balé. A escolha, claro, caiu como um balde de água fria sobre a família na época, mas o que estava contratado com o destino não tinha como ser cancelado.

A veia artística explodiu de vez em 1992, nos palcos da extinta boate Bug House. Ricardo hesitou, resistiu, mas acabou cedendo aos apelos dos amigos bailarinos e se inscreveu no concurso de dublagem. Noite de casa cheia, apresentação da inesquecível Luiza Gasparelly e vitória garantida. Faltava apenas uma coisa: a certidão de nascimento do palco. Stefany di Bourbon um batismo que juntava a paixão pelas canções de Stephanie Mills com o peso aristocrático da realeza espanhola.

O nome pegou rápido. Com dublagens afiadas e uma presença magnética, virou figura carimbada na noite. A arte transformista não apenas moldou sua identidade, como garantiu a independência financeira necessária para que, aos 23 anos, ela saísse de casa para morar sozinha. A liberdade tinha sido conquistada na dublagem e no salto alto.

Convivendo com as veteranas da noite, Stefany lapidou seu humor. Teve como principal mentora a icônica Pandora Bolt, que lhe ensinou o trunfo mais valioso de um artista: a arte do improviso. Nos anos 2000, essa verve cômica saltou das boates direto para o teatro, chamando a atenção do dramaturgo Ronaldo Ciambroni. A parceria rendeu momentos históricos, como a comédia Miss Brasil Sou Eu (2004) um sucesso estrondoso de público no Teatro Bibi Ferreira que exigiu a presença dos bombeiros para conter a multidão que tentava, a todo custo, garantir um lugar na plateia.

Versátil por natureza, Stefany nunca coube em um rótulo só. Entre 2009 e 2011, levou sua comicidade para os alto-mares animando cruzeiros marítimos. Dominou os palcos da TV em diversas participações, e sendo a estrela principal do clipe Bonita de Las Bibas Fron Vizcaya e seguiu firme nos teatros, como na montagem recente de O Fantasma da Minha Sogra.

Imagem; Divulgação

Nem mesmo o baque da pandemia, que paralisou o setor cultural e a fez retornar para a casa dos pais, apagou seu brilho. A prova viva disso veio recentemente , com um convite para participar no Show de Calouros do SBT, apresentado por Patrícia Abravanel e que vai ao ar em dezembro.

Ao olhar para a trajetória de Stefany, fica impossível não pensar em como a nossa sociedade lida com o passar do tempo. Vivemos em uma era obcecada pelo novo, pelo instantâneo e pela juventude a qualquer preço, onde o etarismo opera como uma barreira silenciosa.

Quem convive com Stefany sabe que, mesmo com toda a bagagem e o domínio absoluto de cena, existe ali uma ponta de insegurança. Não deixa de ser um reflexo cruel de um mercado que teima em empurrar artistas maduros para o invisível, como se a experiência tivesse data de validade.

Só que o tempo, na arte, não tira: ele soma. Traz repertório, afina o timing cômico e entrega uma presença que algoritmo nenhum consegue fabricar. Ver Stefany em cena é um lembrete vivo de que o talento não envelhece e de que o palco continua pertencendo a quem sabe, com maestria, fazer a vida acontecer ao vivo.

 

Siga: @stefanydibourbon

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