Da glória dos palcos ao chão de fábrica do samba: a soberania irrefutável de Eloina dos Leopardos

No último dia 21 de setembro, a Acadêmicos do Grande Rio parou Caxias para coroar Anitta como sua nova rainha de bateria. Em um pocket show visualmente inspirado na estética do seu álbum Equilibrium, o grande ápice da noite não foi apenas o glamour pop, mas um gesto de reparação histórica: quem subiu ao palco para entregar a coroa foi Eloina dos Leopardos, a verdadeira pioneira a ocupar a frente de uma bateria no Carnaval carioca.

Criada no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro, Eloina entendeu cedo que precisaria abrir os próprios caminhos. Criada pela madrinha, começou a trabalhar ainda jovem como camareira para se sustentar. Foi nos bastidores dos teatros que seu destino começou a mudar. Na década de 1960, a lendária performer Luz del Fuego enxergou nela um talento raro e a convidou para os palcos.

Imagem: Divulgação / Eloina dos Leopardos

Eloina passou a integrar o histórico grupo de artistas trans e travestis que revolucionou a cena cultural brasileira, imortalizado mais tarde no documentário Divinas Divas, de Leandra Leal. Sob os holofotes do Teatro Rival, no Rio, e de palcos em São Paulo, ela podia brilhar e existir plenamente. Cruzar a porta para a rua, contudo, significava encarar a violência e a repressão ferrenha da ditadura militar, que transformava a simples existência de corpos dissidentes em alvo de prisão.

Em 1969, a artista embarcou para a Europa e consolidou sua carreira internacional, brilhando no icônico Le Carrousel de Paris. De volta ao Brasil na década de 1970, sua força cênica chamou a atenção do mestre Joãosinho Trinta. O ano era 1976 quando Eloina fez história: a convite do carnavalesco, cruzou a Marquês de Sapucaí sambando à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, posto em que permaneceu por mais dois desfiles consecutivos. Ali nascia, na prática, a figura da rainha de bateria como a conhecemos hoje.

Nos anos 1980, Eloina protagonizou mais um pioneirismo na cultura de entretenimento nacional. Após assistir a um espetáculo de strip-tease masculino em São Francisco, nos Estados Unidos, trouxe o conceito para o Brasil. A estreia no Teatro Brigitte Blair, em Copacabana, foi um fenômeno absoluto de bilheteria, lotando sessões e consolidando a personagem que a consagrou em todo o país: Eloina dos Leopardos.

A coroação recente de Anitta, no entanto, reacendeu antigas disputas de narrativa no ecossistema do samba. Nas redes sociais, a ex-modelo Monique Evans declarou que o público não deveria esquecer que ela fora a “primeira madrinha de bateria” (da Mocidade Independente de Padre Miguel), posto que também é reivindicado historicamente pela atriz Adele Fátima. Mas a discussão entre os termos “madrinha” e “rainha” não diminui o peso dos fatos: Eloina foi a precursora de todas. Antes da espetacularização e das cifras milionárias que hoje cercam o posto, foi ela quem abriu a ala com coragem, ginga e ancestralidade.

Imagem: Divulgação / Eloina dos Leopardos

Aos 76 anos, com a lucidez e a dignidade de quem viveu a história por inteiro, Eloina trabalha atualmente na administração de um restaurante no icônico Edifício Copan, em São Paulo. Em entrevista recente, revelou ter recebido o convite para desfilar na Grande Rio em 2025, mas confirmou que seu coração e seus passos já estão comprometidos com o regresso à sua casa de origem: a Beija-Flor.

Se hoje o posto de rainha de bateria é o lugar mais cobiçado e fotografado do espetáculo carioca, é porque no passado uma mulher negra e trans peitou o preconceito e pavimentou o asfalto com elegância. Reverenciar Eloina dos Leopardos em vida não é apenas um ato de cortesia do samba; é o reconhecimento inevitável de que a coroa sempre foi dela.

 

Instagram: @eloinadosleopardos

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