A arte que o algoritmo não apaga: a resistência de Luiza Gasparelly
Em maio e junho deste ano, um movimento chamou a atenção dos usuários das redes sociais: a derrubada em massa de perfis LGBTIAPN+. Um episódio que chegou a ser apontado como censura e que, após intensa mobilização, resultou no restabelecimento parcial das contas de criadores de conteúdo com mais de um milhão de seguidores. No entanto, o impacto dessas remoções continua silencioso e talvez não chame tanta atenção por afetar quem ainda não atingiu a casa dos milhões. É o caso de diversas drag queens e artistas transformistas que utilizam as plataformas como principal vitrine de trabalho e têm suas contas banidas sob a justificativa genérica de “exploração humana”.
Um dos nomes afetados por essa arbitrariedade digital é Luiza Gasparelly, artista carioca nascida no bairro da Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Luíza é a personagem criada por Luiz Carlos, que começou sua trajetória há quatro décadas como ator transformista, vertente artística que hoje muitos conhecem como drag queen.
O nome de batismo emprestou a primeira parte da identidade, mas o sobrenome veio de outra gigante da noite carioca: Andréia Gasparelli. “Quando eu comecei, era só Luíza. Ganhei o sobrenome num show que fui fazer com a Andréia no Bohêmio. A Laura (Di Vison) me anunciou no palco como Luíza Gasparelly e eu logo disse: ‘Não, é só Luíza!’. Mas a Andréia, lá da platéia, gritou: ‘Eu mandei!’. A partir daquele dia, me tornei Luíza Gasparelly”, relembra.
Filho único, criado pelos avós e pela mãe, que ficou viúva quando ele tinha apenas 5 anos, Luiz teve uma infância marcada pela repressão. Mas seguiu em frente até que, na adolescência, fez sua primeira “montação” no Carnaval. Foi nessa mesma época que conheceu Andréia e, incentivado por ela, passou a disputar concursos de beleza e a fazer shows na boate Gaivota.

A Gaivota, a Bug House (onde atuou por seis anos como diretora artística) e a Corintho foram três casas noturnas fundamentais em sua formação. Nelas, Luiza adquiriu a disciplina e o rigor profissional que moldaram seu propósito artístico e de vida.
Pioneira, construiu uma ponte entre o Rio de Janeiro e São Paulo, abrindo espaço para que outras artistas cariocas se apresentassem na capital paulista. Passou por palcos icônicos como o Nostro Mondo e o HS, até que veio o convite para o Show de Calouros, de Silvio Santos, oportunidade que lhe deu projeção em todo o país.
Sua arte, no entanto, ultrapassou as fronteiras nacionais. Luíza morou e trabalhou em países como Alemanha, Angola e Áustria. Em 1998, ao receber o diagnóstico positivo para o HIV, optou pela transparência: em vez de se esconder, compartilhou sua história publicamente para demonstrar que era possível viver com saúde, dignidade e arte.
Tinha tudo para consolidar uma carreira internacional definitiva, mas escolheu voltar e permanecer ao lado da mãe. Com o falecimento dela em maio deste ano, a artista vem lidando com o luto enquanto tenta manter seu trabalho vivo, equilibrando a dor da perda com a resistência diária da profissão.
Perder uma conta de rede social para uma artista independente não é apenas perder fotos ou seguidores: é perder seu portfólio, seu histórico e sua fonte de renda. Mas a história de Luiza não se apaga com um clique ou uma diretriz automatizada de algoritmo. Quarenta anos de arte, pioneirismo e coragem não cabem em uma conta banida.
Apagar o perfil de Luíza Gasparelly é tentar silenciar a memória da própria arte transformista brasileira. Que possamos dar a ela não apenas o follow em sua nova conta, mas o reconhecimento, o respeito e o aplauso de pé que sua trajetória merece.
Sigam em: @luizagasparelly